Protágoras e Bolsonaro


Presidente Jair Messias Bolsonaro


Protágoras de Abdera foi o fundador do relativismo ocidental. A sua frase mais famosa "o homem é a medida de todas as coisas" quer dizer que não existe critério absoluto para julgar as coisas. Não existe um conceito absoluto de verdadeiro ou falso, ou de bem e de mal. Cada homem pode julgar esses conceitos de acordo com a sua visão de mundo e suas opniões. Essa era a base da sofística.  Protágoras é um dos sofistas mais famosos e mais estudados. Para estabelecer a sua teoria sofística ele parte do filósofo pré socrático Heráclito. 

A virtude, segundo esse filósofo, era medida pela habilidade da argumentação. Aquele que conseguisse "tornar mais forte o argumento mais fraco" era considerado o melhor dos homens. Na prática, o homem habilidoso não possui convicções, mas sim conveniências. Para ganhar o argumento, não se preocupava com a verdade, mas sim, se iria convencer mais gente e vencer o argumento.

Bolsonaro parece beber dos ensinamentos do Filósofo. Durante a campanha ele defendia que os ministros deveriam ser escolhidos de forma técnica, sem interferência política. Agora, esse argumento não é mais conveniente. Mas, mesmo mudando o critério do seu governo, Bolsonaro mantém um público fiel de cerca de 30% da população. Ou seja, ainda consegue convencer. Ele é um bom Sofista. 

Outro exemplo de conveniência do discurso do Presidente é aquele do Combate à Corrupção. Esse discurso estava presente na campanha como principal ponto de convencimento ao eleitorado. Atualmente, trocar o diretor da Polícia Federal e pedir interferência em investigações ao ministro da justiça parece ser normal. Será que essa atitude seria criticada por Bolsonaro durante a campanha? Tenho certeza que sim. Só que a postura durante a campanha é diferente da durante o governo. 

Bolsonaro sempre argumentava segundo a conveniência. Se buscarmos vídeos antigos dele no Youtube vamos achar ele defendendo medidas de Estatização e se colocava contra a privatizção de diversas Estatais. Mas, próximo a campanha de 2018, ele se colocava a favor da privatização extrema, ao lado de Paulo Guedes. O discurso mudou porque a opinião pública mudou. O discurso de privatização é muito mais popular atualmente que nos anos 90. 

Outro exemplo é a posição sobre o orçamento impositivo. Na época que o segundo projeto foi aprovado, ainda no governo Dilma, o então Deputado Jair Bolsonaro votou a favor de dar mais autonomia para o congresso decidir sobre o orçamento da União. Entretanto, quando o mesmo Jair Bolsonaro se tornou presidente, a sua base foi contra uma nova ampliação do orçamento impositivo. Mudou de opinião de acordo com a conveniência. 

Voltando a analosgia, Protágoras vai dizer "Tal como cada coisa aparece para mim, tal ela é para mim: tal como aparece para ti, ela é para ti". Se não falasse poderia ser uma frase de Bolsonaro. Reiteradamente ele ataca a mídia, argumentando que ela é tendenciosa e que não fala a verdade. Ele se auto intitula como "Messias" ou como "defensor da constituição" e que só ele fala a verdade. Usa os ensinementos dos Sofistas todos os dias. Em relação ao Corona vírus, por exemplo, reiteradamente prova-se que as coisas parecem para o Bolsonaro completamente diferente ao resto de mundo. A postura negacionista de Bolsonaro em relação a Covid-19 é atacada inclusive por aliados como o Trump.

Explicando melhor a teoria do Protágoras, o sábio, segundo ele, é aquele que sabe distinguir o que deve ser falado em cada momento. Aquele que sabe utilizar o argumento na hora certa para poder convencer mais gente é o homem mais sábio de todos. Podemos ver que Bolsonaro é muito bom nisso. Mas, a distinção do mais útil não foi abordada de maneira profunda pela teoria do Protágoras, e foi Sócrates que mais tarde se aprofundou na essência da utilidade de cada ação sociopolítica. 

Para finalizar, para entender melhor os Sofistas utilizando Bolsonaro como exemplo, vale ressaltar as principais características dessa corrente filosófica. Os Sofistas deslocam o interesse da filosofia da Natureza para o homem. Eles criticam o conceito de verdade e de bem, assim como criticam a religião. Além disso, destroem a imagem tradicional do homem presente naquela sociedade, e representam uma queda da aristocracia e uma ascenção de novas classes. E por último, defendem que a virtude pode ser ensinada e os Sofistas são os mestres dessa virtude. 

Por fim, tanto para Bolsonaro quanto para Protágoras "não existe valores morais absolutos, mas sim algo que é mais útil, mais conveniente, e portanto, mais oportuno". No caso do Filósofo, o mais oportuno é vencer o argumento dentro da ágora. Já para o presidente, o mais oportunuo é a sua manutenção no poder evitando o impeachment.

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