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| Bojack Horseman |
A série Bojack Horseman conta a história de um cavalo que foi um artista famoso de um show quando era mais jovem. Ela se passa num mundo onde pessoas e animais possuem a mesma cognição sobre as coisas. Essa natureza permite que a série tenha liberdade de abordar temas que geralmente são tabu em nossa sociedade, assim como tem muita liberdade para experimentar um modelo novo de fazer série.
Geralmente uma série que é entendida como de humor e tem episódios de 20min tem uma dinâmica muito parecida com “Um maluco no pedaço”. Ou seja, esse formato tem um tema central, que o protagonista ou os coadjuvantes vão tentar resolver durante o episódio. ELe encontra um clímax no final do episódio, e ele encerra com a lição aprendida e de forma leve. Esse formato tem como objetivo final fazer piadas no meio da história, cuja serve para os interlocutores gostarem dos personagens.
Já no caso de Bojack é completamente diferente. Ele é um personagem deplorável, cheio de problemas. Não gostaríamos de tê-lo por perto em nossas vidas. Há outros personagens ainda piores. Há, entretanto, personagens que são mais bonzinhos. Mas, a série não trata os animais-seres-humanos de forma dicotômica. TOdos eles possuem algo de bom e algo de ruim.
Somando esses aspectos com um bom roteiro e principalmente com um estudo de personagem muito profundo do Bojack, temos uma série muito experimental que consegue tratar de diversos temas com uma linguagem própria. Essa linguagem é o que difere completamente de outras séries. Ela é niilista. Não necessariamente porque não tem um sentido, mas, porque o seu sentido não é imersividade em uma história completamente diferente do dia-a-dia da nossa realidade. É um roteiro voltado para um confrontamento de nossa própria realidade de ser humano. Ela é paradoxal, pois coloca no centro da trama um cavalo, que tem relações com outros animais, para contar aos interlocutores, humanos, problemas e questões que enfrentamos no nosso dia-a-dia. Essa série, portanto, afirma a vida nos mostrando temas cotidianos de forma direta por meio do estudo do personagem principal.
Na história da filosofia, de maneira geral e bem simplificado, há três formas para enfrentar a crise existencial: abraçar o absurdo, suicídio e o sentido colocado por alguma atividade. A princesa Carolyn, por exemplo, se ocupa do trabalho, é uma Workaholic. Ela preenche o seu vazio existencial trabalhando: “não importa que a vida não tenha sentido e que eu esteja aqui para nada, o que importa é eu entregar esse relatório”.
Há um filósofo existencialista Espanhol chamado Ortega y Gasset. A sua filosofia é sobre a vida. Ele afirma que nós não somos separados do mundo, nós estamos nele. Portanto pensar o ser humano somente por ele é simplificador, devemos entender o ser como ele mesmo e suas circunstâncias. Muitas vezes as circunstâncias não são favoráveis, e devemos usar a nossa razão para tentar mudá-las. Assim como Edmund Husserl, ele acredita que a nossa relação com o mundo é mútua. Uma forma de mudá-lo é transformar a nossa percepção sobre o mundo. Podemos observar essa visão de mundo em vários momentos na série. A evolução do personagem principal é um colisão com o futuro desse mesmo personagem. Ou seja, Bojack busca por sentido, ele tenta achá-lo em vários lugares mas só acaba encontrando no final. Nessa busca, o seu presente entra em colisão com o seu Eu futuro, um Ser melhor em que ele quer encontrar em algum momento.
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| Sarah Lynn |
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| Herb |
Da mesma forma, esse caminho para outros personagens pode parecer que não tenha sentido. Por exemplo, o de Herb e Sarah Lynn. Ambos morrem antes de conquistar os seus desejos. Dessa forma, a pergunta que a série se faz é: se vamos morrer porque se esforçar em viver? Albert Camus, um filósofo Argelino, responde essa pergunta dizendo que devemos encarar o absurdo. Muitos filósofos dizem que o objetivo da filosofia é achar um sentido para a Vida, Camus defendia justamente o contrário; a filosofia deve admitir que o mundo não tem sentido. O sentido, ao contrário do que acreditamos, não está no mundo, mas na nossa mente. O mundo exterior, o universo, não possui sentido. Ele simplesmente é. Essa concepção é exemplificada no Mito de Sísifo. Esse é um Deus grego que é condenado a levar uma pedra ao topo de uma montanha simplesmente para vê-la cair todos os dias. No dia seguinte ele deve fazer a mesma coisa, até a eternidade. Camus acreditava que a nossa vida é composta por diversas atividades sem sentido. Encarar o absurdo é assumir essa contradição que existe entre nossa consciência e o mundo. Dessa forma, podemos viver livremente.
No episódio da “vista do meio para baixo” há um embate sobre o enfrentamento do absurdo entre o Herb e a Sarah Lynn. O Herb já assumiu e encarou ao absurdo. A Sarah Lynn morreu sem ter encarado o absurdo, mas ela tinha um sentido em sua vida, que era a arte. Ela estava presa a esse sentido; sem a arte ela não era ela mesma, e portanto não era livre. Já Herb encarou o absurdo, assumia essa contradição entre o mundo e a sua consciência e vivia melhor.
Já Bojack vai encarar o absurdo somente no final da série, quando ele é preso e acha o sentido de sua vida dando aula aos detentos. Mas, ao contrário de Sarah Lynn, ele consegue viver sem dar aulas pois ele é livre porque encarou o absurdo.



2 Comentários
"(...) onde pessoas e seres humanos (...)"
ResponderExcluirSim, eu vi agora. Já corrigi, obrigado
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