Pra que Filosofia? - Marilena de Chauí

Marilena de Chauí, Filósofa Brasileira 

Para que filosofia?

As evidências do cotidiano

Diante do cotidiano a gente faz diversas perguntas sobre diversos assuntos. Fazemos afirmações também. Mas, o que essas perguntas nos dizem é que "uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós" (p.6).
A autora então cita diversas crenças silenciosas que estão presente nessas perguntas: a realidade, a causalidade, a estética, a sensibilidade (e como ela nos engana), a diferença entre realidade e mentira, que somos seres dotado de vontade, moral e imoral, objetividade e subjetividade (p.7). Então, no cotidiano há diversas crenças silenciosas que as vezes não refletimos sobre "Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade. "(p.08).

A atitude filosófica

Mas imaginemos que há uma pessoa que faz perguntas diferentes. Invês de perguntar se isso é um sonho, perguntasse "o que é sonho?". Invertendo todas as perguntas uma a uma. Assim, essa pessoa estará tomando uma distância do mundo, das crêncas que ela teve sem pensar. Assim, "Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica." (p.09).
Nesse sentido, poderíamos tentar conceituar a filosofia: "A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido." (p.09)

A atitude crítica

A primeira posição da filosofia é crítica, pois nega todas as crenças ja existentes e pre concebidas. A segunda postura, portanto, é positiva, pois pergunta afirmativamente sobre o que são as coisas. Essa dialética entre negativo-positivo é o que chamamos de pensamento crítico. Assim como Platão e Aristóteles, quando iam conceituar a filosofia, o primeiro disse que ela é a admiração, e o segundo o espanto. Ambas as posturas tratam-se de uma atitude crítica e de distanciamento do comum (p.09). Dessa forma, esse distanciamento é "como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que somos, por que somos e como somos. (p.10).

Pra que filosofia?

É uma pergunta comum. Nenhuma outra ciência enfrenta essa pergunta. Muitas vezes o filósofo é visto como aquele cara que não fala nada com nada, meio avoado. Isso ocorre porque na nossa sociedade acredita-se que só tem valor aquilo que tem uma finalidade. E a filosofia é vista como sem finalidade, que não serve para nada. Entretanto, ela é base para todas as afirmações científicas e pressupostos científicos que vemos por aí. (p.10)
Dessa forma, "o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada." (p.11);
Outros dizem que a filosofia é somente uma doutrina moral, ou seja, que busca o bem-viver. Que busca nos ensinar a virtude. Mas, se ela fosse só isso, a metafísica ainda estaria junto com ela. Assim, "mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que, por que e como - permanecem." (p.11)

Atitude filosófica: indagar

A filosofia indaga muitas coisas. Ela indaga "o que", o "como" e o "por que" de todas as coisas. Mas findadas as perguntas sobre todas as coisas ela começa uma indagação sobre o pensar; Sobre a capacidade de conhecer o mundo, ou seja, será que faz sentido perguntarmos tudo isso ou não sabemos as respostas de nada? Dessa forma, a filosofia se debruça em torno de si mesma e faz perguntas sobre o seu método (p.10).
"A Filosofia torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia se realiza como reflexão." (p.12).

A reflexão Filosófica

A reflexão é vontar a si mesmo. A da filosofia é radical, pois volta ao próprio pensamento. Mas, essa reflexão também se debruça sobre questões do nosso entorno. A filosofia se preocupa com três grandes conjuntos de perguntas:
  1. Quais os motivos, as razões e as causas pra fazermos o que fazemos? Pensarmos o que pensamos? e dizer o que dizemos?
  2. Qual o conteúdo e o sentido das nossas indagações?
  3. E por fim, qual a finalidade de nossas ações e indagações?

Filosofia: um pensamento sistemático

Mas, essas indagações não são feitas sem critério, elas não são meras opiniões. Existe um método para fazer todas essas perguntas (p13).
Isso "Significa que a Filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado." (p.13)

Em busca de uma definição da Filosofia

Quando estamos no início dos estudos filosóficos nos indagamos sobre o papel da filosofia e o que ela é. Mas, buscando as respostas vemos que existem várias e muitas delas contradizem outras. Nesse sentido, há 4 definições gerais
  1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura.
  2. Sabedoria de vida
  3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido
  4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas
"a Filosofia se interessa por aquele instante em que a realidade natural (o mundo das coisas) e a histórica (o mundo dos homens) tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando o senso comum já não sabe o que pensar e dizer e as ciências e as artes ainda não sabem o que pensar e dizer." (p.15)
"Esta última descrição da atividade filosófica capta a Filosofia como análise (das condições da ciência, da religião, da arte, da moral), como reflexão (isto é, volta da consciência para si mesma para conhecer-se enquanto capacidade para o conhecimento, o sentimento e a ação) e como crítica (das ilusões e dos preconceitos individuais e coletivos, das teorias e práticas científicas, políticas e artísticas), essas três atividades (análise, reflexão e crítica) estando orientadas pela elaboração filosófica de significações gerais sobre a realidade e os seres humanos. Além de análise, reflexão e crítica, a Filosofia é a busca do fundamento e do sentido da realidade em suas múltiplas formas indagando o que são, qual sua permanência e qual a necessidade interna que as transforma em outras." (p.16).
''A Filosofia não é ciência: é uma reflexão crítica sobre os procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão crítica sobre as origens e formas das crenças religiosas. Não é arte: é uma interpretação crítica dos conteúdos, das formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder. Não é história, mas interpretação do sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo. Conhecimento do conhecimento e da ação humanos, conhecimento da transformação temporal dos princípios do saber e do agir, conhecimento da mudança das formas do real ou dos seres, a Filosofia sabe que está na História e que possui uma história." (p.16)

Inútil? útil?

Se ser útil está ligado com fama, riqueza, ou ter um objetivo econômico, a filosofia é inútil e quer permanecer sendo. Mas, ela é inútil mesmo? "Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes." (p.17);

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