Hans Jonas, nascido na Alemanha em 1903, é conhecido principalmente pelo seu trabalho na construção de uma ética do futuro. Seu livro mais conhecido, O Princípio Responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, trata dessa problemática de maneira completa e excepcional. Nele, ao longo de seis capítulos, é feito um estudo colocando em questão as éticas tradicionais e sua carência de explicação no mundo hodierno no que diz respeito à complexidade das técnicas adquiridas pelo homem e suas consequências em relação à crise ambiental.
Para o filósofo, a ética tradicional surgiu e se manteve ao longo da história ocidental com um enfoque antropocêntrico, pois somente estuda as ações humanas que afetam o mundo intra-humano, deixando completamente de lado contextos extra- humanos e das gerações do futuro. Jonas ressalta que na Grécia antiga, época em que essa concepção surgiu, a natureza era considerada intocável não sendo possível ao homem destruí-la, nem mesmo sequer afetá-la. Além disso, não se imaginava que o conhecimento técnico pudesse chegar ao ponto atual, em que se tornou possível questionar se existirá vida futura na terra (JONAS, 2006, p. 31). Outro ponto, é que a ética tradicional é imediatista, ela atribui valor moral à ação examinando um contexto de curto prazo, sem reflexionar as consequências futuras dessa ação. Partindo desse pressuposto, “Sua autoria [ações] nunca é posta em questão, e sua qualidade moral é imediatamente inerente a ela.” (JONAS, 2006, p. 37).
Dessa forma, devido às alterações ocorridas no poder humano de intervenção na natureza, é preciso buscar uma nova ética delineadora das novas ações consequentes dessa mudança, pois a ética tradicional não as contempla. Assim, Jonas, após uma intensa reflexão das problemáticas supracitadas, propõe uma ética do futuro que pode ser expressa pelo imperativo: “aja de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a terra” (JONAS, 2006, p. 47). A base dessa nova proposta é a preocupação com o futuro, o que traz à ética de Jonas uma raiz ontológica diante da quebra da ideia de reciprocidade que tem marcado as éticas tradicionais.
Nesse sentido, o presente trabalho investiga se essa nova proposta é aplicada na prática, no âmbito da educação e da pedagogia nas universidades e escolas públicas. Se, a partir dos resultados levantados concluir-se que não é trabalhado, será proposto soluções para que essa nova abordagem seja aplicada nesses setores. Além disso, será ressaltada a importância de trabalhar esses temas nessas instituições da sociedade, abordando autores que estudam a formação do estudante, dando foco aos teóricos da educação.
A partir da leitura do artigo O problema da técnica e a crítica à tradição na ética de Hans Jonas, de Robinson dos Santos, é possível refletir acerca das éticas tradicionais e das razões de seu fracasso em responder aos desafios contemporâneos, já que, a partir da modernidade, o agir humano se modificou
confundindo-se com a técnica. A ação humana teve sua esfera progressivamente ampliada devido a evolução dos meios. Como ele mesmo diz, a técnica: “introduziu ações de uma tal ordem inédita de grandeza, com tais novos objetos e consequências que a moldura da ética antiga não consegue mais enquadrá-las” (JONAS, 2006, p. 26).
A ética focou-se no homem, na relação homem-homem e, consequentemente, a relação com a natureza foi ignorada. (JONAS, 2006, p. 22). Outro fator apontado por Jonas é que a ação ficava circunscrita ao tempo presente, com o avanço da techne as ações humanas ganharam influência para o futuro. (JONAS, 2006, p. 23). Assim, no primeiro capítulo de sua obraJonas argumenta porque as éticas tradicionais falharam:
Toda ética até hoje – seja como injunção direta para fazer ou não fazer certas coisas ou como determinação dos princípios de tais injunções, ou ainda como demonstração de uma razão de se dever obedecer a tais princípios – compartilhou tacitamente os seguintes pressupostos inter-relacionados: (1) a condição humana, conferida pela natureza do homem e pela natureza das coisas, encontra-se fixada de uma vez por todas em seus traços fundamentais, (2) com base nesses fundamentos, pode-se determinar sem dificuldade e de forma clara aquilo que é bom para o homem; (3) o alcance da ação humana e, portanto, da responsabilidade humana, é definido de forma rigorosa. A argumentação que se segue pretende demonstrar que esses pressupostos perderam a validade e refletir sobre o que isso significa para a nossa situação moral (JONAS, 2006, p. 15).
As constatações de Jonas, apesar de serem generalizantes1, pois não exemplificam de qual ética tradicional estão se referindo, o que afeta a compreensão no sentido de saber sobre qual modelo é endereçada a crítica. Entretanto, parte-se do pressuposto que a crítica é endereçada a todos os sistemas éticos e, nesse sentido, Jonas argumenta que as constatações presentes neles possuem um caráter antropocêntrico. É uma tradição centrada no homem, não se preocupando com relações que ultrapassem a dimensão homem-homem: “A significação ética dizia respeito ao relacionamento direto do homem com o homem, inclusive o do homem consigo mesmo; toda ética tradicional é antropocêntrica” (JONAS, 2006, p. 22).
Além disso, outro ponto levantado pelo autor é pelo caráter extremamente imediatista das éticas tradicionais. O bem e o mal das ações ficava preso a um âmbito calculável de curto prazo. Aspectos como a condição global da vida humana, os animais e a própria natureza ficavam de fora da esfera de atuação desses modelos: “O longo trajeto das consequências ficava ao critério do acaso, do destino ou da providência. Por conseguinte, a ética tinha a ver com o aqui e a gora, como as ocasiões se apresentavam aos homens” (JONAS, 2006, p. 23).
Jonas caracteriza essa forma de agir e pensar como ética da simultaneidade, ou seja, de preocupação estritamente no tempo presente com o homem ao centro de tudo. A ética então, fica presa nesse sistema. É impensável que uma pessoa seja punida por consequências futuras de seus atos presentes, por exemplo. Elas ignoram tanto o futuro distante, quanto todo o mundo extra-humano. “Se uma ação é boa ou má, tal é inteiramente decidido no interior desse contexto de curto prazo. [...] Ninguém é julgado responsável pelos efeitos involuntários posteriores de um ato bem intencionado [...]. (JONAS, 2006, p. 25) .
A partir dessas limitações, Jonas procura formular uma nova ética, que tenha como horizonte de sua projeção o futuro desconhecido, incluindo nele o direito dos que ainda não existem e ter como centro de referência não apenas o homem, mas a vida do cosmos, isto é, a totalidade daquilo que vive. Com isso, em lugar da ética antropocêntrica, é reivindicada uma ética bio ou cosmocêntrica.
Se assim for, isso requereria alterações substanciais nos fundamentos da ética. Isso significaria procurar não só o bem humano, mas também o bem das coisas extra-humanas, isto é, ampliar o reconhecimento de ‘fins-em-si-mesmos’ para além da esfera do humano e incluir o cuidado com estes no conceito de bem humano (JONS, 2006, p. 29)
José N. Heck, em seu artigo O princípio responsabilidade e a teleologia objetiva dos valores, apresenta uma visão sucinta sobre a ética do futuro. Segundo ele, Jonas argumenta que a nova ética está amparada no modelo metafísico de Aristóteles: “a futura existência da humanidade não será assegurada pela moral e pela ética, mas a teremos devido à ‘metafísica como uma doutrina do ser, do qual a ideia do homem é uma parte’ (JONAS, 2006, p. 91)”
Jonas amplia as dimensões da ética kantiana, de consequências locais e somente humanas, para consequências temporais e em objetos não humanos. “O lastro metafísico da ideia de humanidade tem sua continuidade consequente em uma teoria teleológica de ação, na qual propósitos subjetivos repousam sobre uma objetividade de fins, contidos na natureza como valores imanentes a ela e, portanto, previstos por ela própria” (JONAS, 2006, p. 91) .
Outra originalidade que o autor acrescenta em sua ética é fundamentá-la ontologicamente. Integra a ética uma doutrina do ser na qual o homem faz parte, sem recair em um antropocentrismo mas sem negar o lugar especial ocupado pelo ser humano no reino da vida. Para Jonas, o ser vivo carrega um dever, porque ele vive autoafirmando-se e, nesse sentido, carrega um bem e um valor. Já que o ser humano é o único capaz de responsabilidade, não é uma lei moral que postula como devemos agir, mas quem nós somos que pressupõe como devemos agir.
A partir desses estudos Jonas vai propor, à luz da ética kantiana, um novo imperativo que leve em conta o que foi criticado em ralação a ética tradicional. O novo imperativo se prescreve: “Age de tal modo que as consequências de tuas ações sejam compatíveis com a permanência da verdadeira vida humana sobre a terra” (JONAS, 2006, p. 36). Dessa forma, o autor começa a pensar sobre as aplicações de sua nova ética.
Levando em conta o caráter da simultaneidade da ética, é preciso formular novas respostas para as novas consequências produzidas pela técnica à vida humana. Assim, Jonas entende que é possível efetuar uma previsão intencional da deformação do humano e da natureza, para que possamos compreender as consequências de nossos atos atuais, e possamos entender qual é a humanidade que queremos e, portanto, preservá-la. Assim, o primeiro passo da ética do futuro é prever os efeitos de longo prazo de nossas ações. Pensar as consequências da técnica, não só para o tempo presente e imediato, mas para o futuro. Pensar como essas ações irão afetar a humanidade na próxima geração. Pautar uma futurologia no temor: “nós precisamos de ameaças à imagem humana – e de tipos específicos de ameaças – para que, com o pavor suscitado, nós consigamos assegurar uma imagem humana autentica” (JONAS, 2006, p. 64).
É a partir dessa certeza a respeito do mal que queremos evitar, que devemos delimitar nosso modo de agir presente. Devemos saber aquilo que não queremos que aconteça com a humidade num tempo próximo, para adequar as nossas ações do presente, no sentido de prever suas consequências. Essa teoria proposta por ele é chamada de heurística do Temor. Jonas argumenta sobre no enxerto seguinte:
Pois assim acontece conosco: o reconhecimento do malum nos é infinitamente mais fácil do que o do bonum, é mais imediato, forçoso e muito exposto às diferenças de opinião, e, acima de tudo, ele não é procurado: a simples presença horrível do mal se nos impõe, enquanto o bem pode permanecer aí discretamente, irrefletido (para que nós devemos ter uma razão especial) e desconhecido. Sobre o mal nós não temos incertezas quando o experimentamos; sobre o bem temos certeza, na maioria das vezes, quando dele nos desviamos. (JONAS, 2006, p. 64).
Sobre a possível dúvida presente nesse prognóstico feito acerca do futuro, o filósofo argumenta que é preciso dar ouvidos as avaliações mais negativas. Introduz- se o conceito de in dubio pro malo: “em caso de dúvida, dá ouvidos à pior prognose antes de preferir a melhor, pois os lances tornaram-se muito onerosos para o jogo” (JONAS, 1994, p. 64). Assim, Jonas vai transformar o conceito em princípio. Pensar no critério ‘na dúvida, a favor do pior’ é ignorar prevenções paliativas que permitem que o negativo aconteça. Ou seja, se qualquer ação está afetando a continuidade da vida humana na terra, mesmo que infimamente, deve-se pensar no pior que isso pode causar, e procurar solucionar o problema. Nesse sentido, pensa-se no caráter ontológico da vida humana, e mais a fundo ainda, porque deve haver vida: “se e porque deve haver uma humanidade; sim, porque, em geral, deve haver vida” (GIACOIA JUNIOR, 1999). E mais:
Se existir um imperativo categórico para a humanidade, então todo jogo suicida com essa existência está categoricamente proibido, e ousadias técnicas, nas quais esta é a aposta, ainda que remotíssima, devem ficar excluídas ab iniito” (GIACOIA JUNIOR, 1999).
Jonas argumenta que essa nova ética pautada na metafísica procura pensar um agir que abarca toda a vida humana e extra-humana, não só a ação homem-homem. A autorrealização do homem e, portanto, dele como objeto da ética, seria a evolução qua pessoa no ponto terminal de sua evolução.
O ponto de partida para uma ética do futuro é incluir em nossas decisões cotidianas as dimensões globais e futuras, isso é uma inovação que a técnica nos trouxe. (JONAS, 1994, p. 35). Além disso, é preciso entender as consequências desse poder no meio ambiente próximo, a dicotomia entre uma natureza finita e o incansável progresso da técnica. A ética para o futuro é aquela que se preocupa com as consequências futuras de nossas ações, buscando uma responsabilidade pela manutenção da vida na terra: “a responsabilidade deriva para nós, de maneira não intencionada da pura dimensão do poder que exercemos diariamente a serviço do imediato, mas que deixamos repercutir sem querer sobre tempos vindouros” (JONAS,1998, p. 135).
A demonstração de que a ética necessita de uma fundamentação ontológica é o primeiro passo da fundamentação de uma ética do futuro. Essa superação, demonstrada pela existência de liberdade já nos primórdios da vida, exemplifica que os julgamentos de valor, característica do campo ético, possuem uma derivação ontológica, derivadas do próprio ser, pautadas principalmente no ponto de vista biológico. O autor busca fazer uma ponte lógica entre o Ser e o Dever-ser, ou seja, as ações da ética estão pautadas dentro do próprio ser em sua tendência autoafirmativa (JONAS, 1998, p. 137). Dessa busca não aparece apenas a realidade do ser, mas o dever do ser humano para com as gerações do futuro.
Ora, o ser é ameaçado pelo Não ser, é vulnerável e marcado pela constante fragilidade perante sua realidade. Soma-se a isso o avanço da técnica, que aumenta essa vulnerabilidade e, diante da qual, é necessário e imprescindível defender a existência do ser. Nesse sentido, o autor argumenta que o homem é o único ser capaz de ter responsabilidade. Essa afirmação é de caráter metafísico, pois está
necessariamente intrínseco na imagem de ser homem. (JONAS, 1998, p. 144).
Todo ser está imbuído de um valor e isso o faz necessariamente possuidor de um bem, do qual emana o dever do ser humano em protege-lo (JONAS, 1998, p. 139). A lógica que fundamenta o dever em cima do valor, é que a existência é um bem em si mesma. Como o ser possui a responsabilidade como caráter intrínseco, ela se estende também ao futuro. Não é somente necessário garantir a responsabilidade para com os atos imediatos, mas também com os futuros. A responsabilidade do ser humano é garantir também responsabilidade em seres da humanidade futura. (JONAS, 1998, p. 146). Isso se formula como uma regra pela qual: “os descendentes futuros da espécie humana não seja permitido nenhum modo de ser que contrarie a razão que faz com que a existência de uma humanidade como tal seja exigida” (JONAS, 2006, p. 94). Nesse sentido, a ética é fundamentada nessa ontologia, já que o caráter do agir humano está presente no próprio ser.
o primeiro princípio de uma ‘ética para o futuro’ não se encontra nela própria, como doutrina do fazer (à qual pertencem aliás todos os deveres para com as gerações futuras), mas na metafísica, como doutrina do Ser, da qual faz parte a ideia do homem (JONAS, 2006, p. 95)
Essa argumentação é primordial em sua teoria. Antes de pensar sobre como devemos agir, ou como o homem deve existir, devemos pensar o porquê o homem deve existir. Esse fato é o cerne de toda a fundamentação ontológica da ética Jonasiana, ele diz: “para mim, esse imperativo é o único ao qual realmente cabe a determinação kantiana de categórico, isto é, da incondicionalidade” (JONAS, 2006, p. 95).
Assim, tendo em vista sua ética, é possível analisar algumas esferas do conhecimento humano e como elas se relacionam com sua teoria. Primeiro, podemos analisar como a arte possui um papel em seus escritos. O autor, distingue no ser humano três características que o tornam humanos: a ferramenta, a imagem e a tumba.
A ferramenta aparece por primeiro, mas ela não é ainda uma prerrogativa humana, posto que alguns animais também utilizam alguns tipos de ferramentas. Embora ela represente a imaginação e o caráter criativo do homem, ela também demonstra um caráter utilitário, próprio do homo fabeo. NO segundo momento, temos o homo pictor, que é produtor de imagens, aquele que se distingue propriamente dos animais. E, por último, na beira do túmulo, ou seja, perante o cultivo dos mortos, o homo sapiens se distingue definitivamente, porque só ele é capaz de atingir um grau tão alto de desenvolvimento espiritual (JONAS, 1998, p. 44).
Assim, técnica moderna fez com que o homem volte-se a uma ancestralidade do ponto de vista negativo, quando apenas fabricava ferramentas. A fundamentação sobre uma perspectiva biológica entra em cena. É claro que algumas habilidades feitas pelo homem são para satisfazer as suas necessidades biológicas. Outras, representadas pela criação de ferramentas, possuem um objetivo teleológico. Mas as pinturas, não servem a nenhum desses objetivos, estando logicamente relacionados com algo diferente. A pintura é um feito transanimal exclusivamente humano (JONAS, 1998, p. 49). Interpretar as imagens é algo humano, que nenhum outro ser vivo consegue fazer. Na mesma medida, segundo o autor, criar imagens está intimamente ligada aos primórdios da capacidade linguística.
Analisando o fenômeno da tumba, que é por onde se origina a metafísica, o autor consegue entender que a trajetória da vida sempre segue no sentido de complexificação e aprimoramento da liberdade. Dessa forma, utilizando da arte, essencialmente da pintura, é possível libertar o homem ainda mais, chegando a um nível mais avançado de natureza humana. Libertar-se até do corpo e da natureza biológica da matéria.
A pintura pode ser usada como método para compreender a transanimalidade do ser humano, que é quando o homem se liga ao processo evolutivo da vida, seguindo ao seu objetivo que é chegar ao estado de maior liberdade do ser. O ato de pintar, também é um ato de pensar, e segundo o autor: “é o cúmulo do princípio de mediação com o qual a vida começou e cujo o aumento se pode seguir através de toda evolução orgânica” (JONAS, 1998, p. 52).
Outra esfera que pode ser realizada à luz a obra de Jonas é a política. Usando o artigo Singularidade e dificuldades do pensamento de Hans Jonas, de Lourenço Zancanaro, podemos fazer uma relação entre a nova ética jonasiana e a política. Marienstras (1994), concorda com Jonas, quando diz que a moralidade não deve buscar somente o bem humano, mas reconhecer a natureza em si mesma. Acrescenta que o erro não está no excesso de antropocentrismo presente nas éticas tradicionais, mas tratar o homem como ser isolado de instâncias extra-humanas (1994, p.188).
A base para a heurística do temor é a ética da reponsabilidade. Essa é o princípio fundamental para dirigir uma ética para a era tecnológica. Introduzir esse princípio na interpretação das leis, e na formulação de novas leis, é uma alternativa para pensar o como agir no mundo contemporâneo. Tal fundamentação é uma doutrina dos princípios da moral, além disso, precisamos pensar uma doutrina de sua aplicação. (JONAS, 2006, p. 69). A primeira se refere a uma doutrina dos códigos morais, ou seja, de reestruturar as leis já existentes e formular novas utilizando o princípio responsabilidade com base de sua formação. A segunda é a doutrina da jurisprudência, onde podemos interpretar as leis já existentes utilizando o mesmo princípio.
Pensando todas essas implicações da ética Jonasiana, e fazendo algumas relações com a atualidade e outros autores, podemos pensar como podemos implementar esses pensamentos na prática. Não meramente transformá-lo numa doutrina, seja da fundamentação ou da aplicação, mas entender como podemos colocar os princípios do nosso filósofo nas ações cotidianas.
Podemos estabelecer três parâmetros para pensar em como iremos agir: (1) o que se deve esperar; (2) o que se deve incentivar; (3) o que se deve evitar frente ao que se deve esperar. Além disso, pode-se utilizar um método para refletir sobre essas três esferas, que possui dois passos: (1) saber a ciência das causas e dos efeitos; e (2) entender a fundamentação ontológica do ser, e agir pelo dever ser (PSD, 136).
Em primeiro lugar, saber o que se deve esperar é imprescindível. Entender que as ações do homem não mais implicam em consequências imediatas, mas sim no futuro e no mundo todo é o primeiro passo. Logo, buscar internalizar que o ser possui uma fundamentação biológica em si mesmo, onde o sentido da vida é em mantê-la, assim pode-se entender como a dinâmica das relações funcionam. Além disso, compreender que o homem não mais é o homo pictor, mas é o homo faber, onde a técnica avançou de tal modo que está implicando na vida futura. O que se deve esperar é toda aquela ação que de alguma forma implique em danificar a vida humana autêntica na terra, em conformidade com o imperativo Jonasiano.
Frente a isso, pode-se saber o que deve ser incentivado. São todas aquelas atitudes que mantém, sem danificar, o encontro do homo faber com o homo sapiens, onde a finalidade da vida é cumprida: chegar ao seu ponto máximo de liberdade. Não só as atitudes que mantém tal ação, mas as que incentivam; os atos e a busca total pela liberdade. Nesse sentido, pode se fazer útil a arte, no modo como fora citada, de aprimoramento da liberdade do homem.
Por último, sabendo o que se deve esperar, o que se deve incentivar, é preciso saber o que se deve evitar. E nesse âmbito, as leis podem cumprir seu papel de organização social, formando uma sociedade que se importa não só com o bem estar do presente, mas de suas gerações seguintes. Criar e fortificar leis que agridam o meio ambiente, afetando a vida humana autêntica na terra, é o papel central desse passo. Uma legislação ambiental forte é imprescindível. Não só isso, expandir para outras leis até chegar na carta magna, que é a constituição.
Por fim, completando as etapas, pode-se realizar medidas de formação e concomitantes às supracitadas que tenham como base a educação. Uma educação pautada na nova ética, que busca compreender o novo status do homem frente ao mundo é um passo importante na construção de uma ética que tenha um dever para com o futuro. A educação ambiental ocupa um papel central nesse novo paradigma. Entretanto, não somente esse aspecto, mas imbuir a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) dos princípios de Jonas, buscando fortalecer as ações humanas evitando consequências negativas, também é um passo fundamental.

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