A estética capitalista

John Dewey – Wikipédia, a enciclopédia livre
John Dewey, filósofo Norte Americano





Segundo John Dewey, ciência não é apenas uma arte do saber. Ela também tem um papel social muito importante. Além disso, o mundo capitalista acaba destruindo as verdadeiras experiências que teríamos com a natureza e com o mundo, o que é exacerbado pelo aquecimento global.  

Em primeiro lugar, é preciso dizer a natureza da crise ambiental. E depois, como a negação da crise é uma representação da forma de pensar do capitalismo. Para fazer uma interpretação disso, será usado a estética na experiência (experience aesthetics). A partir dessa estética, será feita uma relação com a estética do capitalismo.  Dewey, em sua teoria, argumenta que a experiência tem uma certa estética. A estética presente na experiência é o que justifica a vivência dela. Dessa forma, a ciência e o conhecimento, trabalham não a favor de nossos desejos. (DEWEY, 1980, p. 40) Mas a favor de experiências melhores. Por exemplo, quando a ciência apontou que o cigarro causava cancer, o ser humano parou lentamente de fumar. Agora ela aponta que sobre as mudanças climáticas. Como Dewey vai apontar: 

Experiência, em suma, é definida por aquelas situações e episódios que nós nos referimos expontaneamente como sendo "experiências reais"; aquelas coisas sobre as quais nos dizemos quando as recordamos: "aquilo que era experiência". (Experience in this vital sense is defined by those situations and episodes that we spontaneously refer to as being "real ex periences"; those things of which we say in recalling them, "that was an experience.) (1980. p.36)


O que estamos presenciando é uma negação da negação. As pessoas não só negam que as mudanças climáticas foram ocasionadas pelo ser humano, mas que haja qualquer tipo de mudança climática. Além disso, é preciso estabelecer uma diferença importante que existe entre uma mercadoria qualquer e o planeta, que é o valor. Nós sabemos, mais ou menos, quanto uma televisão valhe, e quanto é justo pagar por ela. Se ela estraga, nossa reação vai ser diretamente ligada por quanto ela valia. Mas como dar valor ao mundo? É uma pergunta difícil de ser respondida. 
 
Outro ponto importante a ser ressaltado é a visão do livre mercado para a produção do preço está relacionada com a Oferta e Demanda. Ou seja, há uma concepção intrínsica que um produto mais presente no mercado, vai ser mais barato, e um mais escasso, mais caro. Vamos aplicar isso ao planeta terra.  Pensar sobre a atmosfera, que ela tem infinita capacidade de absorver a polução ocasionada pelo ser humano e ainda permanecer em equilíbrio. Ou será que algum dia esse essa absorção se tornará escassa? Será que o planeta tem a capacidade infinita de gerar água limpa para todas as pessoas, ou será que um dia ela será escassa? O capitalismo nos implica a pensar dessa forma, dando valor as coisas. Se trantando de mercadorias, até faz sentido, mas essa visão não se aplica perante a natureza. Dessa forma, a lógica mais profunda do capitalismo, que é a comodificação da natureza, é a que vai contra a sua própria existência - ou seja, sem natureza, sem mercadoria. 

Esse pensamento, fazendo uma análise por meio de Dewey, nos indica que a melhor forma de satisfazer a experiência do capitalismo é por meio do consumismo; de consumir produtos produzidos e industrializados. Herman Daly, nos estudos das premissas do capitalismo moderno, nos apresenta o "mito dos recursos infinitos" (Beyond growth: the economics of sustainable development, 1996, p.75), que qualquer coisa que possamos encontrar na natureza, vai se restaurar naturalmente. Outro pirncípio encontrado é que o valor de uma "comodite" - aquilo que é tirado da natureza - está ligado com o quanto aquilo vai agregar de lucro - ou deja, de valor agregado - no produto final (DALY, 1996, p. 144). Somando esses dois princípios, é lógico que o excesso de poluição seja comum no capitalismo. Mas, a abordagem aqui não é necessariamente econômica, mas filosófica. Ou seja, como a estética do capitalismo subcerte o conceito de experiência em Dewey. 
Crescimento e limites ecológicos
Herman E. Daly, economista Estadunidense

Segundo ele, a experiência genuína é aquela que nós faz lembrar por muitos anos, que ficam pregadas na memória. A construção disso se dá por meio da educaçao, que nos ensina o que deve ser aprovado e o que deve ser negado, assim como valores morais e estéticos presentes na sociedade (DEWEY, 1997, p.25). Da mesma forma, a construção de uma experiência genuína se dá atrelando senssações e emoções àquela ação, a significando, e tornando-a significativa para nós (1980, p.42). Assim, para que se tenha uma experiência verdadeira e genuína, é preciso que ela seja atrelada a valores morais, estéticos e emocionais. Aquelas ações que não possuem essas características não são genuínas. E como veremos, a atitude consumista nao tem essas três bases apresentadas. Dewey vai dizer, que as ações que não são fundamentadas pelos treis conceitos, não são verdadeiras experiêncais:  

até uma emoção que não é baseada em nenhum objeto demanda algo além de si mesma para atrivuir a si mesma, e portanto gera uma ilusão de que falta algo real. [...] Para se tornar emocional elas devem se tornar parte de uma situação inclusiva e duradoura que envolve preocupaçao com objetivos e suas problemáticas. (even an 'objectless' emotion demands something beyond itself to which to attach itself, and thus it soon generates a delusion in lack of something real. [...] In order to become emotional they must become part of an inclusive and enduring situantion that involves concern for objectives and their issues.) (1980, p.42). 

Ampliadas pelo poder da técnica, criamos soluções para essas crises "fixas" do capitalismo. Se os recursos são escassos, devemos, por meio da influência do homem, criar e desenvolver outros recursos. Essa concepção antropocentrica da técnica e da economia faz a gente pensar que vivemos no mundo capitalista, e não no nosso planeta em si. 

O mundo capitalista, dessa forma, artificializa a nossa experiência estética da natureza. Ou seja, aquilo que podemos encontrar no nosso planeta, o mercado transforma em mercadoria e nos vende como uma experiência verdadeira. Veja por exemplo o "sea world", que imita uma sensação genuína que só encontraríamos na natureza. Isso nos dá a ilusão que vivemos de fato no capitalismo - como ele próprio sendo o mundo - e não em nosso planeta. 

Dessa forma, a comodificação dos recursos naturais não reflete valor. Transforar a natureza simplesmente em algo que deve ser agregado valor de mercado, que se sustenta no mito dos recursos infinitos, é um suicídio coletivo, pois sabemos que o mito dos recursos infinitos é falso. A natureza tem seu valor intrínsico. Além disso, a  natureza humana também tem seu valro intrínsico,  não sendo definida simplesmente pela procura de elementos materiais. Há muito além disso. A experiência estética que podemos encontar no mundo vai muito além do material industrializado baseado em "objetos que não tem emoção" (1980, p.52).

Por meio desses mitos, e mercantilizando até as provas de que as atitudes humanas estão modificando o planeta, a negação da negação não dá nenhuma forma de consciência sobre o problema. Esse niilismo do mundo capitalista, não tem compromisso com o planeta - que garante a sua existência - mas sim com seu próprio sistema de se aperfeiçoar ainda mais. 

Ainda segundo Dewey, a ciência, como prática, tem uma base praserosa. A estética como experiência é todo aquele ato que quando estamos fazendo, há uma certa arte e prazer por trás. A ciência, mais a fundo, estabelece uma forma estética da sensibilidade que é pautada pelo amor ao saber. A ciência, para ele, portanto, tem seu valor intrínsico também. A própria experiência da sensação de saber, é o que justifica o prazer científico. Não necessariamente se a sua investigação chega a um objetivo (1996, p36). 

Entretanto, há dois mundos que as ciências como experiência estética não seriam possíveis. Num mundo acabado, onde não há nada para evoluir ou mudar. Ou num mundo em que nada seria constante, que mudaria toda hora, e que não tivesse causalidade em suas modificações. A experiência é calcada em um mundo que muda, mas que chega a algum objetivo e tem certa estabilidade, e o mais importante, causalidade. 

O mundo capitalista existe pelo movimento. Nada tem seu valor em si mesmo, o valor sempre está fora da mercadoria. Então, ela deve ser transformada. As coisas, principalmente a natureza, existe para a troca. Dewey está certo a dizer que existem mundos onde a Experiência Estética é possível; e também onde ela não seria possível. Mas, o capitalismo é um mundo que a experiência estética é colocada no consumo, tirada do mundo em si. Colocada em um elemento em movimento, fora do mundo. E o avanço da técnica que leva ao limite essa mudança, pode representar um novo mundo Heraclitiano em que nenhuma experiência seja genuína, apenas a serviço de uma técnica poderosa que cada dias nos consome mais. 
Água garrafa 600ml – Vila da Pizza
Garrafa d'água do capitalismo

Por últim, uma garrafa d'água é um ótimo exemplo para entender como até a ciência é usada a favor do capitalismo. Quando as propagandas dizem que uma água é pura, não necessariamente ela é mais pura que a água de uma fonte, mas sim porque o "puro" significa um valor que foi dado aquela água, e atestado pela ciência. E ao contrário dos problemas de consumo que encontramos com a água, aqueles chamados problemas fixos do capitalismo, as mudanças climáticas não são dessa maneira.



Referências: 
DALY, Heman D. Beyond Growth : The Economics of Sustainable Development. Beacon Press, 1996.
DEWEY, John. Experience and education. Free Press, 1997. 
DEWEY, John. Art as experience. Perigee Trade, 1980. 
DEWEY, John. Experience and nature. George Allen & Erwin. 1929. 

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