O que é Niilismo?
Tenho que escolher o que detesto - ou o sonho
que minha inteligência odeia, ou a ação, que
minha sensibilidade repugna; ou a ação, para que
não nasci; ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum;
mas como hei-de, em certa ocasião sonhar ou agir,
misturo uma coisa com outra.
Bernardo de Campos, um heterônimo de Fernando Pessoa descreveu bem o conceito que vamos tentar
decifrar e conceituar nas próximas linhas. Para ele, a vida e o mundo consiste simplesmente entre
pensamento (sonho) e ação. Todos os seres vivem a vida de tal forma, ou sonhando ou agindo.
inteligência’, ora pela sua ‘sensibilidade’.
Bernardo (e Pessoa) são Niilistas. Nos poemas desse heterônomo encontramos uma síntese concisa,
mas profunda, do que é Niilismo. Primeiro, as duas maiores crenças da história da filosofia,
o racionalismo e o empirismo, representadas pela primeira frase da epígrafe. Nosso autor, assim como
os filósofos, entende que existe duas maneiras distintas de ver o mundo, e ora elas se confundem e
influenciam uma nas outras (Como diria Kant). Dessa forma, sabendo dessa condição humana, não vê
sentido nem em uma nem em outra.
não necessariamente em ordem no texto. A dicotomia entre empirismo e racionalismo, a síntese
de Kant (que começou o esvaziamento da metafísica) e o Niilismo. Niilismo, portanto, é a falta de
sentido. É reconhecer que a metafísica não se pode constituir como ciência, ou sejas, não podemos
conhecer àquilo que a metafísica nos propõe. Parte dela as concepções ideais de mundo, como Justiça,
Deus, Igualdade e Liberdade. Elas não podem ser conhecidas. Da mesma forma que as filosofias do
“outro mundo”, que pregam uma vida além da nossa, também perdem o seu sentido. Nessa medida, o
Niilismo tem uma intrínseca relação com a verdade.
Começando com Kant; ele nos afirma que os conhecimentos ideias não são possíveis de ser alcançados,
e portanto não sabemos se são verdadeiros ou falsos. É o começo de um Niilismo mais radical, que
Nietzsche aborda em sua obra. Para ele, não só não é possível saber se é verdade ou não, como não é
possível saber se esse conceitos existem de fato ou é apenas criação do homem. Ele argumenta a favor da
segunda.
Essa perda de sentido coloca diante de si uma escolha ética muito dura. Bernardo de Campos é um
Niilista ativo, segundo a teoria de Nietzsche. Esse tipo de ação perante o esavaziamento de sentido é
um agir positivo; ou seja, o indivíduo reconhece que não há nada além desse mundo, e mais, não há
conceitos metafísicos; o que existe é apenas o Meu corpo, minha ação e meu pensamento nesse mundo.
Assim, Bernardo, que reconhece a inexistência de sentido na vida, a reduz a apenas agir e pensar; e
mesmo estes ele não vê sentido em fazê-los; porém, sua atitude não é de negação, mas de afirmação, e
portanto positiva. Ele afirma a vida, afirmando que mistura o sonho com a realidade, ou seja, vive a vida
nela mesma, não colocando sentido no além.
O conceito Niilista, representado muito bem nessa passagem, e também na obra completa de Bernardo
de Campos, é um esvaziamento das certezas tradicionais da filosofia moderna. Ou seja, esvaziar a teoria
empirista, a teoria racionalista, até mesmo a síntese de Kant, esvaziar a metafísica, a ontologia, a
epistemologia. Nada disso faz mais sentido, pois as suas fundações estavam calcadas em princípios que
negam a vida. Esses princípios o levavam a pensar o além-vida. É preciso destruir (ou esvaziar) esses
conceitos como um martelo, e a partir do Nada construir algo completamente novo.
O Niilismo não pode ser explicado como o Nada, pois ele não é. O Niilismo é um processo de superação,
em que a primeira etapa é destruir conceitos aparentemente consolidados, pois as suas fundações eram
erradas - negavam a vida; e a segunda etapa é construir uma nova teoria baseada em fundações que
afirmam a vida como ela é, aqui e agora. É necessário “misturar sonho e ação” a favor de viver esse
mundo.
Por fim, Niilismo é cegar-se para ver de novo. Cegar-se, reconhecer o mundo em que vive, pois quando
se é cego, o que importa é ver de outras formas, importa o físico, o tátil; quando se é cego a metafísica
ganha novo sentido, pois a visão - ou a falta dela - possibilita isso. E logo, nessa nova realidade de Cego,
achar uma outra forma de ver; não com os olhos e com Deus, mas com o mundo a sua volta e você
mesmo. A falta daquele mundo anterior é o novo sentido, se podemos dizer assim, mas mais do que isso,
não é preciso sentido, é preciso apenas enxergar:
“a falta que os olhos nos fazem, ver, ver, ainda que não fosse mais que umas vagas sombras, estar diante de um espelho, olhar uma mancha escura e difusa e poder dizer, Ali está minha cara, o que tiver luz não me pertence (Ensaio Sobre a Cegueira, p. 102)
A falta existe. Ela é a razão de quedarmos cegos sobre o mundo. Mas, o Niilismo é um espelho
que possibilita vermos a nossa nova face diante desse novo mundo: viver a vida afirmando-a.
que possibilita vermos a nossa nova face diante desse novo mundo: viver a vida afirmando-a.

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